domingo, 24 de setembro de 2017

Tradicional feira de gado de Caruaru (PE) está em crise

Edição do dia 24/09/2017
24/09/2017 09h08 - Atualizado em 24/09/2017 09h10

Tradicional feira de gado de Caruaru (PE) está em crise

Globo Rural foi a uma das maiores feiras de gado do país mostrar como a falta de chuva e a violência têm impactado o negócio de criadores locais.

Phelipe SianiCaruaru, PE
Quando se chega ao local da feira de gado em Caruaru, Pernambuco chega, só um touro mais desconfiado dá aquela encarada básica. Os outros estão mais preocupados em matar toda a fome acumulada de uns bons anos para cá. Porque a propriedade é a mesma de sempre. Já o visual... Fazia tempo que os 30 hectares não eram de um verde bonito o suficiente para manter o banquete constante de todo mundo por aqui.
“Isso aqui parecia um sertão. Isso aqui era uma terra preta, não tinha nada”, diz o criador Edvaldo de Paula Bezerra sobre a seca. Como é bom, enfim, olhar pro céu e voltar a ter esperança depois de seis anos doídos de tão secos. Agora, é só passear pelas estradas de chão de Altinho, bem perto de Caruaru, para ver que se nesse ano a chuva caiu e o cenário esverdeou, o sorriso largo no rosto queimado de todo mundo voltou.
Muitos criadores tiveram prejuízo com a seca. “Meu irmão mesmo teve um prejuízo enorme, assim, permanecendo com gado no período de verão por conta da seca. Era muito prolongada e ele gastando com ração, até com água a gente chegou a gastar, até com água a gente gastou muito dinheiro com água”, conta Edvaldo.
Sem ambulância
Todo mundo tem que tomar muito cuidado porque com as negociações é muito gado que entra e que sai do curral, e aí muito bicho sai correndo, bravo. E aí tem que ficar esperto porque um acidente pode acontecer. Essa é a reclamação número um de quem frequenta a feira toda semana. Se alguém trombar de frente com um touro vindo em velocidade, o que todo mundo jura que não é incomum, não tem uma ambulância para socorrer.
Feira acontece há 55 anos
Com tanta gente que entende tanto querendo comprar e vender no mesmo lugar, a feira que funciona já faz 55 anos virou uma das mais importantes do país.
E chama feira de gado, mas tem cavalo, porco, cabra, ovelha, tem quantos bodes couberem na traseira da perua antiga judiada pelo poeirão do interior pernambucano.
Mas mesmo com tanto animal e com a volta das chuvas na região, são encontrados muito corredor de curral com os espaços todos vazios. É que quem participa da feira diz que nos últimos anos ela diminuiu muito de tamanho por causa do aumento da violência.
Onda de violência atingiu feira
“Aconteceram vários assaltos aqui já dentro da feira. Isso era uma coisa que nunca acontecia e, ultimamente, por falta de segurança, por falta de um policiamento aqui isso tá acontecendo”, conda Edvaldo. Atualmente a feira se resume a 30% do que era antes.

Com tanta reclamação, tentamos falar com a direção do espaço. A reportagem do Globo Rural procurou o coordenador da feira, que até nos atendeu, mas não quis falar muito sobre o assunto e disse que não ia gravar entrevista.
Talvez porque seria ser bem difícil explicar o que aconteceu em julho desse ano, quando, dentro da feira, bem perto de um desses muitos currais vazios, veio o anúncio não de uma venda, mas de um crime... O produtor rural Severino Ramos da Silva foi assaltado e baleado. Os tiros que foram dados na direção dele pegaram no braço com a mão hoje bastante inchada pegaram no quadril, onde uma bala ainda está alojada, mas ele está vivo. Com o filho dele, que estava junto, a história foi outra. Ele foi atingido por uma bala e morreu.
No pasto, ficou a marca na vaca com as iniciais do filho João Barbosa Neto. No quintal, ficou o cachorro amuado, com saudades do dono que nunca mais apareceu, a declaração antiga a uma ex-namorada. Dentro de casa, as máquinas de costura pararam. É que ele aprendeu a fazer calças jeans. Na seca, a renda era essa. Ele sempre dava um jeito de não deixar faltar comida na mesa para todo mundo da família.
É por isso, dizem os produtores, que a feira de gado vem diminuindo ano a ano. A prefeitura diz que já chegaram a ser negociadas 3 mil cabeças por semana na feira. Hoje, é bem menos da metade disso.
Feira em Cachoeirinha ganha espaço
A 43 quilômetros ou 45 minutos dali, já se percebe um ambiente parecido com Caruaru. Nas barracas tem ferramenta enferrujada, botina, espora, enxada, tem de tudo um pouco. E além das barracas vendendo tudo quanto é tipo de coisa, o que a gente encontrou bastante aqui também foi restaurante com o pessoal já comendo arroz, feijão macaxeira, farofa, carne de sol, salada... Às 8h30!
Entrando na feira, o modelo é o mesmo de Caruaru em um espaço mais apertadinho. Mas lá, ao contrário de Caruaru, não se encontra um curralzinho vazio que seja. Por incrível que pareça, até o gado aqui parece que é mais calminho.
Pelo movimento dá para perceber que quem foi desistindo de Caruaru nos últimos anos pela falta de segurança foi se aproximando de lá. Assim, segundo o secretário de administração de Cachoeirinha, a feira deles já tá quase tão importante quanto a de Caruaru.
Cachoeirinha não tem nem 20 mil habitantes. Caruaru tem 350 mil. Mas depois de tudo isso, a gente pode ter, pelo menos, uma boa notícia. Depois de assumir que falta segurança na feira de gado de Caruaru, a Polícia Militar prometeu melhorar e muito a situação até o fim do ano.
Não há dados disponíveis sobre os crimes dentro da feira de gado de Caruaru. Mas entre os seis grandes municípios de Pernambuco, com mais de trezentos mil habitantes, Caruaru tem o maior índice de assassinatos. A violência afeta toda a população, não só os usuários da feira.

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