sábado, 6 de janeiro de 2018

Cangaceiros foram obrigados a cavar as próprias sepulturas

Cangaceiros foram obrigados a cavar as próprias sepulturas

Só na década de 1960 a história do assassinato dos cangaceiros foi resgatada pelo médico Napoleão Tavares
O local onde os cangaceiros foram enterrados está abandonado ( Fotos: Antonio Rodrigues )
00:00 · 06.01.2018 por Antonio Rodrigues - Colaborador
Os cinco de frente foram fuzilados. Lua Branca, último Marcelino, estava sentado, ferido. Atrás deles, os soldados e, em pé, Sargento José Antonio da Acauã
O secretário de Cultura de Barbalha, Rômulo Sampaio, visitou o local, que pretende desapropriar para construir uma pequena praça, com a restauração das covas. Mas ainda não tem nada de concreto, pois depende de uma verba que ainda não existe
Barbalha. "O audacioso grupo de bandoleiros chefiados pelos irmãos Marcelinos continua a praticar os mais audaciosos crimes no Cariry, de onde, todos os dias, chegam notícias de suas façanhas", anunciava o jornal sobralense "A Ordem", do dia 7 de setembro de 1927. Quatro meses depois, outro veículo cearense, de Fortaleza, "O Ceará", noticiava a morte do grupo de cangaceiros, em Barbalha. Neste sábado (6), o fuzilamento do bando pela Polícia completa 90 anos.
No dia 3 de janeiro de 1928, o mais velho dos irmãos Marcelinos, o João 22, entra morto na cidade de Barbalha, pendurado num pau, com seu cabelo arrastando no chão. Como heróis, os policiais acompanham o corpo, que depois seria enterrado como indigente numa cova qualquer. Algo raro para um cangaceiro, que normalmente tinha sua cabeça decepada e o corpo deixado aos urubus.
Três dias depois, ferido do combate, Raimundo Marcelino, o Lua Branca, caçula do bando, é capturado junto com mais quatro homens e levado à delegacia pública de Barbalha. No dia 6 de janeiro, os cinco rapazes seriam transferidos de trem para Fortaleza, para serem ouvidos e julgados pelos seus crimes. Mas o trajeto foi interrompido no Sítio Alto do Leitão, em Barbalha, onde foram obrigados a cavarem suas próprias covas, antes de serem assassinados pela Polícia.
Bandido fardado
O fuzilamento foi ordenado pelo Sargento Zé Antônio da Acauã, de Juazeiro do Norte. Morreram Pedro Miranda, Joaquim Gomes, João Gomes, Manoel Toalha e Lua Branca. "Ele era um bandido fardado, violento, que não respeitava limites da lei. Na época, o bando estava esfacelado. Muitos nem viviam no cangaço, eram amigos, meninos de recado", conta o médico Leandro Cardoso, pesquisador da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço.
Manoel Toalha, por exemplo, foi morto inocentemente. Na verdade, ele era garçom e, por ventura, estava com o grupo quando foi capturado. Ele foi um dos que tentou fugir, quando percebeu que seria assassinado e chegou a correr por 50m, antes de ser alvejado. Foram enterrados em cova rasa e esquecidos.
"O erro está quando o policial, Sargento José Antônio, se arbitra senhor do bem e do mal e faz justiça com as próprias mãos. Nesse episódio, ele se torna até pior do que os cangaceiros. Ele, como militar, deveria preservar a integridade física e levá-los para pegar o trem para Fortaleza", completa Leandro.
Só na década de 1960 a história do assassinato dos cangaceiros foi resgatada pelo médico Napoleão Tavares, que descobriu os túmulos enquanto ia, a cavalo, estudar no Crato. "Quando me formei em Medicina, em Recife, retornei e fui bater lá. Encontrei as cruzes dentro do mato, sem referência nenhuma", lembra Napoleão.
Por iniciativa sua e do advogado Josafá Magalhães, a área onde estão enterrados os cangaceiros foi restaurada e foi feita uma celebração. "Botamos um cercado de arame farpado, restaurei o lugar central, onde tinha a cruz e os túmulos. Fizemos uma missa no cair da tarde, com os grupos de folclore saindo da mata. Eram penitentes, rezadeiras, beatos, saindo de cada vereda", acrescenta o médico.
Os dois também compraram madeira e cobriram os túmulos com telha, mas, seis meses depois, tudo foi roubado. Hoje, as covas estão cercadas por arame farpado, cobertas por mato e uma das cruzes caída no chão. As mais antigas, sumiram. Uma estrada fica a poucos metros e as sepulturas podem ser vistas de longe, mesmo encobertas com a vegetação.
Segundo Leandro Cardoso, a história do fuzilamento dos Marcelinos deve ser preservada e recontada, não como apologia ao cangaço, ou sobre a repressão, mas pela maneira como foram mortos. "Não deram a chance de que a Justiça pudesse ser feita, pagar pelos seus crimes e serem condenados de maneira justa", acredita.
O secretário de Cultura de Barbalha, Rômulo Sampaio, visitou o local há pouco tempo. Sua ideia é fazer um projeto, com desapropriação, que torne o local uma pequena praça e com a restauração das covas. "A ideia é trazer turistas. A gente considera ali um monumento histórico. Mas ainda não teve condição. Hoje, não tem nada de concreto, pois depende de verba, que não tem, até o momento. Eu sairia frustrado da gestão sem uma restauração", afirma.
Os irmãos
"Telegramas recebidos ontem nesta capital informavam que os mesmos bandoleiros haviam atacado o estafe dos Correios no lugar Baixios, a meia légua do Crato, tendo roubado, no mesmo local, cerca de 30 pessoas que se dirigiam para a feira do Crato", detalha o jornal "A Ordem", do dia 7 de setembro de 1927. Os Marcelinos praticavam pequenos assaltos, sobretudo nas cidades de Jardim, Barbalha, Crato e Cariri-Mirim (PE).
Eles entram na vida de cangaço quando o mais velho, João Marcelino, até então vaqueiro, é humilhado pelo delegado Ioiô Peixoto, no meio da feira de Serrita (PE). Ele resolve se vingar e, com ajuda de seu irmão, Manoel, começa a perseguir até matar o policial. "Aí não teve mais sossego, vendeu tudo que tinha, comprou arma e foi ser cangaceiro na Chapada do Araripe", conta Napoleão Tavares.
Manoel e João Marcelino começam sua vida de banditismo pela região, por volta de 1923. O caçula, Raimundo, mais tarde se une, ganhando a alcunha de Lua Branca. Os três servem por um tempo o bando de Lampião, inclusive, Manoel, ganha dele o nome de Bom de Veras, e passa a ser respeitado pelo sertão, por sua agilidade, coragem e destreza com as armas.
"Virar cangaceiro, naquela época, era a coisa mais fácil do mundo. Se olhar a colonização do Brasil, em 400 anos, a tônica é a imposição do terror, a violência. Se sobressaia socialmente aquele que era mais violento, quem manejava melhor as armas de fogo ou brancas, porque não existia o Estado, não chegava em todos lugares. Para defender sua terra, propriedade, sua família, tinha que lançar mão da violência contra índio, contra ladrão, polícia, onça, contra tudo", explica Leandro Cardoso.
Os Marcelinos optam por não seguir o bando de Lampião e praticar seus pequenos crimes no Cariri, como assaltos e roubos. Chegam a matar pessoas inocentes, como o agricultor Joaquim Guida, residente no Baixio do Muquém, em Crato. Sem piedade, ele é assassinado pelo grupo, que não leva nada dele, nem mesmo a feira e seu dinheiro.
Mas o momento mais marcante dos Marcelinos é a invasão de Barbalha para matar o coronel Antônio Xavier. Na calada da noite, se escondem nos arredores do casarão do rival, que dá um jantar para familiares e amigos. Avistando o alvo da janela, os cangaceiros atiram, acertando um espelho e não o coronel. Percebendo o fracasso, fogem dos capangas do poderoso homem.
"Os cangaceiros Marcelinos não tiveram uma representatividade grande, como os Curisco, Labareda. Eles fizeram pequenos assaltos aqui. Não foram de grande importância na historiografia do cangaço. Talvez, a coisa mais importante é a maneira brutal como foram mortos", acredita Leandro Cardoso.
Por outro lado, a morte dos Marcelinos teve destaque em página inteira no jornal de Fortaleza "A Ordem", do dia 7 de janeiro de 1928, descrevendo ação da Polícia que matou João 22 e capturou Lua Branca.
"O Cariry vai agora dormir sossegado, livre de seu pesadelo sinistro. A ação policial contra os bandoleiros, até agora considerada nula, determinou o ânimo do povo em um estado psicológico de completo desalento", narra o periódico.

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